quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Documentário sobre Tradição Oral, dirigido por Paulo Siqueira.

Veja mais informações em Blog Cajuínas

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Narrativas Populares

“O mito é a parte escondida de toda história, a parte subterrânea, a zona ainda não explorada porque faltam ainda as palavras para chegar até lá. Para contar o mito, a voz do contador no início da reunião tribal quotidiana não basta. É preciso lugares e momentos particulares, reuniões especiais. A palavra não basta; o concurso de um conjunto de significados polivalentes, isto é, um rito, é necessário.”
CALVINO, ÍTALO. A combinatória e o mito na arte da narrativa.

Própria das algumas classes ditas iletradas, a tradição oral, sobretudo em suas manifestações de mitos, lendas e ‘causos’ em geral, tem sido muito valorizada por acadêmicos que se dedicam ao seu estudo e compilação. Considera-se que é na tradição oral que se fundamenta a identidade cultural mais profunda de um povo e particularmente concordo com essa consideração.

Dentro desse panorama, estuda-se, por exemplo, desde obras gregas clássicas como Ilíada e Odisséia, tendo como quase certo que foram inicialmente longos poemas recitados de memória, até manifestações bem atuais e regionalizadas, comuns entre determinados grupos sociais no Brasil, como os ciclos de João Grilo, Pedro Malasartes, Camões, entre outros.

Mas, para fora dos círculos acadêmicos pouco se tem falado, ou pouca importância se tem dado para e relação mitopoética que pessoas de classes populares têm com sua língua, com suas concepções de mundo, suas crenças e concepções do divino...

A partir disso, gostaria de comentar sobre um trabalho desenvolvido na cidade de Guarulhos, grande São Paulo, na modalidade EJA – Educação de Jovens e Adultos - que contraria um pouco essa corrente e leva o tema das narrativas míticas para dentro das salas de aula mais populares a fim de trazer o tema a quem é de direito: o contador de histórias popular.

Durante 4 anos - de 2005 à 2008 com continuidade em 2009, o que leva a quase 5 anos de tempo - tive a oportunidade de desenvolver o projeto “Narrativas Populares – Contadores de História da EJA”.
Tal projeto começou de uma iniciativa de implantação de projetos de arte-educação no currículo da Rede Municipal de Educação de Guarulhos. Entre os projetos estava e ainda está o Projeto de Contar Histórias, sob a coordenação do educador e pesquisador Daniel D’Andrea, que esteve ativamente envolvido no processo de implantação do projeto de contar histórias.

Trabalhei/trabalho neste projeto como arte-educador desde 2004. Em 2005 o projeto foi estendido para a modalidade EJA. Tive a oportunidade desde então de desenvolver, dentro do projeto de contar histórias, o Projeto Narrativas Populares cujo foco, além de ter como eixo o Mundo do Trabalho, valorizava a recolha e a sistematização de contos populares, com a possibilidade também de formar grupos de contadores de histórias da EJA.
Esse projeto culminou em muitas ações e produtos. Entre as ações mais interessantes estão as várias rodas de contar, feitas periodicamente durante o ano. E entre os produtos estão os contos filmados, gravados e escritos. Foi, ao meu ver, uma experiência de enriquecedora tanto para mim como arte-educador como para os educandos participantes. Muitos se entregaram de tal modo que nunca faltaram as aulas e, atualmente, passaram a enxergar a escola como um espaço de construção de saberes culturais, coisa que antes era vista como desnecessária.
Aproveitando a deixa, não poderia deixar de citar a grande colaboração dos educadores e gestores das escolas em que o projeto esteve presente. Com especial destaque para a Escola Municipal Nelson de Andrade, onde praticamente toda a comunidade escolar de EJA esteve ativamente envolvida.
Nesta escola, muitas rodas de contar foram feitas durante o ano de 2008. Trago, com o vídeo acima, um pequeno recorte do trabalho. O vídeo mostra uma das alunas mais aplicadas do projeto, contando um ‘causo’ de Lobisomem que ouviu da própria mãe, há mais de 25 anos, na Bahia, sua terra natal.
A aluna Ana, e tantos outros alunos que compõe as turmas de EJA da cidade de Guarulhos, é parte de uma considerável porcentagem de migrantes vindos dos estados no norte e nordeste para São Paulo. Com a mala cheia de sonhos, muitos perderam sua identidade cultural ao se depararem com a selva de pedra, onde só sobrevive quem consegue se encaixar num cruel e desigual esquema de mercantilização da força de trabalho.
Lutemos contra o desenraizamento e a perda da identidade cultura! Contando nossos causos, pondo a palavra no mundo, revivendo saberes esquecidos, montando novos saberes, compartilhando conhecimento e vivenciando um outro espaço vamos fazendo aquilo que mais gostamos: Contar Histórias!
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BOSI
, Eclea. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. São Paulo: T.A. Queiroz, 1983.
CALVINO
, Ítalo. A combinatória e o mito na arte da narrativa. In: LUCCIONI, G. et. al. Atualidade do mito. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

______.
O castelo dos destinos cruzados. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

LE GOFF
, Jacques. História e Memória. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1996.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


Este vídeo foi gravado no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, como parte do projeto "Memória dos Brasileiros", desenvolvido pelo Museu da Pessoa. Eu gostaria muito ter a possibilidade de desenvolver projetos como esse aqui pelas periferias de São Paulo. Muitas pessoas acreditam que apenas nos interiores encontramos pessoas como a Dona Ducha. Mas eu, por experiência própria, posso afirmar que há muitos contadores, cantadores, benzedeiras e rezadeiras nos fundões da periferia da grande São Paulo.

CRÉDITOS
Imagens: Eduardo Barros e Rafael Buosi;
Edição: Eduardo Barros;
Pesquisa e Entrevista: Thiago Majolo, Cláudia Leonor, Winny Choe e Antônia Domingues;
Coordenação: Cláudia Leonor;
Produção: Sérgio Milleto.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Olá a tod@s!

O blog Enredos da Terra está sem grandes atividades, mas isso não significa que esteja adormecido. Tanto que estamos preparando novidades e para que tudo funcione bem há necessidade de um tempo de apuração e reflexão sobre as mudanças, assim como um período de testes. Aguardem...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009



Tive a oportunidade de ouvir este mito há algum tempo, antes de me tornar contador de histórias, e agora encontrei-o num livro da antropóloga Betty Mindlin.

Quem me contou foi um professor de história, ainda quando eu cursava o ensino médio. Ele falava sobre a similaridade entre os mitos de criação das diferentes nações indígenas pelo mundo. E agora, numa ocasionalidade, me deparei com o texto publicado num livro da antropóloga Betty Mindlin.

Não podia ter vindo em melhor hora. Coloco-o como minha primeira contribuição ao blog Enredos da Terra. Contribuição muito propicia, por sinal.

Esta é uma narrativa sagrada. Aliás, como todos os mitos, esta narrativa representa a verdade existencial dos Cayapo.

Reparem que logo no início, a narrativa diz que todas as pessoas viviam no céu. O céu, lugar do divino, era a morada do povo. E num determinado momento, um animal, neste caso o tatu, propicia aos Cayapo ainda num estado de pura divindade, o conhecimento da existência de uma terra abaixo da deles. O conhecimento de uma terra cheia de florestas. Uma terra livre.


Este mito, assim como outros, trás para a terra os homens que viviam como “Deuses” no céu. Trás para terra os homens da terra. Para que eles contem e recontem essa história. A história de como seu povo, de origem celeste, chegou na grande floresta. A história dos descendentes das estrelas. Enredando cada um na sua própria trama.


Apreciem sem moderação. Enredos da Terra agradece.


Felipe Cabral.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Bem-vindos!

Salve Contador de Histórias!

Salve Guri!

Salve Guria!

Salve Moleque!

Salve Menina!

Salve Moço!

Salve Moça!

Salve José e Maria!

Salve Maria e José!

Inicia suas atividades o Blog Enredos da Terra. Pretendemos enredar a tudo e a todos com artigos, textos, contos, vídeos e áudios que tenham como compromisso a palavra e a imaginação das mais fascinantes narrativas populares que se tem notícia.

Para que alguém possa também narrar um dia: era uma vez um blog chamado Enredos da Terra, que numa ensolarada manhã de quinta-feira, ao primeiro dia do ano de 2009, começou a espalhar na rede a palavra dos povos da terra.


Felipe Cabral.